08/04/2017 17:25:00

ARTIGO
Com você que eu quero falar
(*) Pedro Rodrigues Neto



Ontem foi o Dia Mundial de Combate a Depressão. Vi muito conteúdo flutuando, muito pedido de apoio e compreensão. No ano de 2011, após um experiência terrível em uma empresa do interior do Paraná, eu fui diagnosticado com depressão. Acredito, na verdade tenho certeza, que ela já me acompanhava, mas o ambiente insalubre a qual fui exposto, culminou para que a doença mostrasse sua face mais dura. Desde então eu luto contra os sentimentos e efeitos que vão e vem, vão e vem. O fato é que leva tempo para se livrar, você pode passar um ano inteiro bem e, do nada, por algum processo em sua vida, ela voltar e te acertar com força. 

Nessas horas, quando ela me atinge, eu procuro trabalhar minhas emoções, mas principalmente, luto para fortalecer minha autoconfiança e minha motivação.

Depressão é uma frente fria que chega na alma, esfriando tudo. A gente sabe como funciona. Aos poucos tudo vai perdendo cor e sentido, tudo vai ficando cinza, o ânimo vai sumindo, a vontade de se isolar aumenta a cada dia e o que queremos é simplesmente não falar, não ouvir e não se expressar. Apenas existir. 

Nesses momentos, ciente de que a energia gasta enfrentando o processo irá me derrubar ainda mais, eu procuro mergulhar na introspecção tirando proveito dela. Revejo planos, racionalizo fatos, leio, leio e leio incansavelmente tudo aquilo que testa ou justifica a minha existência. Eu aprendi que a depressão nos faz questionar nosso valor, nosso ser, nos deixa com o sentimento de que somos menos que os demais; menos felizes, menos importantes, menos amados, menos competentes, menos inteligentes, menos tudo. Na verdade ela nos faz sentir como se fossemos a materialização de tudo aquilo que ninguém quer ser. Mas é mentira! É uma peça, uma simulação mental e emocional desencadeada por um processo químico, fisiológico, um truque da nossa mente. 

Ler, experimentar textos introdutivos ou profundos ao existencialismo, a razão de ser e existir, buscar conteúdos que exponham a natureza humana nas suas mais variadas faces, nos ajudam a entender que não somos a sombra do mundo como imaginamos, não somos o descarte carente de piedade, muito menos somos especiais. Não, irmão! 

Somos comuns, somos feitos da mesma matéria e elemento que todos os demais, com a única diferença momentânea de que passamos por processos emocionais confusos e sofridos, fruto de alterações em nossa própria mente e organismo. Todo mundo fica doente, depressão é doença e precisa ser tratada. 

Eu entendo o que acontece comigo! Se isso me prejudica? Claro, mas o que mais eu posso fazer? Sentar e chorar? Aceitar a piedade do mundo? Receber olhares fraternos seguidos de comentários altruístas. Não meu irmão, eu levanto a cabeça, mesmo que demore meia hora, um dia, ou dois, fico de pé, tento usar tudo que está fervilhando dentro de mim como uma força compreensiva do meu estado naquele momento. 

Faço tratamento, óbvio. No meu caso, a psicanálise tem se mostrado eficiente, já passei por psicólogos, mas não me alcançam, não conseguiram, ao menos os que eu passei, mergulhar comigo na dor da minha alma. Mas reconheço, todos cumpriram um papel importante no meu crescimento e na minha evolução. 

Eu alio o tratamento a certeza de que não sou aquilo, estou aquilo, e posso controlar a sombra que insiste em crescer. Eu aprendi a conviver com ela de uma maneira funcional, tentando extrair das minhas baixas, oportunidades para me ouvir, me analisar, me conhecer e me perdoar. Você é tão valioso quanto qualquer outra pessoa, irmão. Esse sentimento que aperta seu peito, espreme seus olhos e derruba seu ser, é um truque, uma reação química, uma cicatriz emocional que você adquiriu ao longo da vida. Faça dela uma tatuagem que se modifica a cada período, faça dela uma marca de crescimento espiritual, emocional e pessoal. Às vezes, ficar pra baixo é sensacional, porque a gente desconecta deste frenesi e entra num mundo tão pessoal. Eu sei que lá é escuro, frio e triste, mas quer saber, leve uma lanterna, um violão, acenda uma fogueira e faça destes momentos o seu momento de encontro consigo mesmo. Leia Sartre, leia Nietzsche, leia Paulo Coelho e Augusto Cury se quiser. Não sinta vergonha de nada, não se julgue, não se puna, não se mutile. Faça carinho na sua alma, trate ela como você quer desesperadamente ser tratado quando está deprimido, Dê a você mesmos boas doses de inspiração, busque as chaves que abrem todas as portas e janelas da sua alma e faça deste porão de tristeza um belo jardim a ser semeado. É possível, acredite, eu faço isso a cada época. Eu busco mergulhar em mim mesmo, eu busco trabalhar no movimento da minha mente naquele momento. Obviamente, tem dias que funciona 100%, tem dias que funciona a 30%, mas até mesmo quando estamos bons os dias são de sol ou de chuva, então porque querer exatidão e perfeição em dias que dói o coração? O resultado pra mim? Sempre sai desses momentos mais forte e até colhendo frutos que jamais colheria em situações convencionais. Já escrevi um livro em período depressivo e pasmem, foi um dos mais vendidos na área de ciências políticas em 2015. E aí? O combustível funciona, ou não? 

Você não precisa mais viver assim, você não precisa mais olhar com os olhos de uma criança que anseia por atenção. De isso a você mesmo, e lembre-se: trate essa doença como doença porque é o que ela é. Vá ao médico, tome seus remédios, se ame e se apoie, cresça nesses momentos usando a tristeza para exercitar a introspeção e análise produtiva, se escute, se ouça. E não deixe de falar, de conversar, de sair com quem te faz e ter quer bem. Não tem vergonha de dizer "estou na bad" qual o problema? Tá na bad, tá na bad. Vai pedalar, faça uma tatuagem, ouça música, vá num show, viva e conviva com a doença, controle ela até dominar.

Quando a alma chora, o coração escuta. Se dê a possibilidade de se ouvir, de se cuidar. Dê essa chance a você mesmo. Ah sim, e ignore aqueles que julgam você. No final, os doentes são eles. Vida que segue irmão, vida que segue em movimento e crescimento uniformemente variável.

(*) Pedro Rodrigues Neto é jornalista, professor e escritor

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