16/05/2017 16:07:00

RELATO
A dor de ver seu país cair aos pedaços
Alfredo J. Ramirez (*)



É algo terrível ver seu país de origem rasgar-se lentamente em uma marcha da morte inabalável. Aquele lugar que um dia acolheu meus olhos semiabertos de recém-nascido, já não é o que conheci nem aquele das histórias que escutei.

Não estou falando do sofrimento da Síria ou do drama da Ucrânia, embora sejam trágicas histórias. A dor e o tormento que me afetam e a milhares de outras pessoas está ocorrendo na nação sul-americana da Venezuela, a qual tem apertado o laço em volta do pescoço nas últimas duas décadas com má política atrás de má política.

O aumento da atenção internacional para a grave crise que afeta a Venezuela tem levado muitas pessoas que sabem de minha origem a perguntar sobre minha situação, em busca de insights sobre o sofrimento do país.

Podem ser os laços estreitos, meus avós que vieram me visitar e acabaram de retornar ou o fato de que ainda tenho muitos amigos e família que moram lá, mas minha resposta àqueles que tentaram puxar conversa tem sido um universal "posso conversar sobre qualquer coisa, exceto isso. Simplesmente me deixa muito triste".

Esse sentimento é compartilhado por muitas outras pessoas que conheço. Muitos amigos da família estabeleceram "uma regra de 10 minutos" quando a Venezuela, Hugo Chávez ou Nicolás Maduro surgem na conversa, querendo dizer que se recusam a dedicar mais de 10 minutos para falar sobre um acontecimento tão deprimente.

Rompi meu silêncio há uma semana. Um amigo próximo me perguntou como estava a situação por lá. Consegui explicar tudo o que podia, todo o tempo engolindo um nó na garganta e tentando evitar as lágrimas.

Todos os amigos e familiares que conheço que moram ou em algum momento moraram na Venezuela já foram roubados, agredidos, sequestrados, baleados ou assassinados. Meu avô foi golpeado no peito com o cano de uma arma por causa de sua corrente de ouro. O carro novo do meu tio foi roubado no mesmo dia em que ele o havia comprado, quando entrava na garagem do prédio onde mora. A ex-mulher de meu padrinho foi sequestrada três vezes, sendo que seu carro foi baleado durante o último ataque.

Um iPhone ou qualquer acessório mais luxuoso do que um relógio do Mickey Mouse é um convite para o roubo. Ladrões em motocicletas se infiltram pelas faixas no tráfego para bater nas janelas dos carros exigindo qualquer eletrônico ou itens caros. Às vezes, podem matá-lo simplesmente porque você não tem nada para dar.

Os problemas não se limitam ao crime. Além da perpétua preocupação com a vida, o país inteiro está propenso a sofrer apagões, escassez de produtos básicos e necessidades, inacreditáveis filas quilométricas para comprar qualquer coisa e um impasse político aparentemente insuperável. A previsão para o PIB da Venezuela em 2016 era de uma queda de -8%, inflação nas alturas, perto de 500%, e o salário mínimo foi reajustado há alguns dias para cerca de US$ 13.50 por mês (aproximadamente 42 reais).

O mesmo avô que foi agredido teve de passar por três cirurgias a fim de substituir os marca-passos que estavam com defeito, sendo que a última cirurgia demorou meses para ser realizada até que um marca-passo pudesse ser encontrado no país. Há dois meses, ele teve de esperar entre 2h da manhã até as 15h em uma fila para comprar bateria para o carro. Quando a bateria parou de funcionar no mês passado, ele foi obrigado a voltar e fazer tudo de novo.

Durante a visita mais recente aqui, alguns familiares levaram o máximo de itens de primeira necessidade a fim de continuar suportando a crise. Entre eles estão comida em lata, feijão cru, arroz e remédios que não precisam de prescrição médica, como o antiácido Tums, para indigestão, e aspirina.

A cerveja desapareceu na maior cervejaria do país; as ruas ficam vazias à noite, já que quadrilhas de colectivos desfilam assaltando e matando sem nenhum obstáculo e discrição; e seis soldados foram presos por ter roubado cabras, porque não tinham comida suficiente nos quartéis.

Simplificando, o país está caindo aos pedaços.

A pior parte é que milhões de venezuelanos não são tão afortunados quanto aqueles que conheço. São submetidos a um tratamento muito mais terrível sem nenhum recurso. Muitos não recebem ajuda ou dinheiro suficiente para pagar por esses itens e têm de sofrer com uma única refeição miserável por dia, trabalhando por um salário merreca. Este é um dos aspectos mais dolorosos deste desastre.

Sempre me senti perto o suficiente para compartilhar a dor e a tristeza de meus compatriotas ao mesmo tempo em que me sentia distante o suficiente para ter o direito de não falar sobre o assunto. Mesmo agora, escrevo isso sob o conforto do ar-condicionado de minha casa nos EUA. Mas me recuso a ser um espectador.

Dois anos, vários verões e inúmeras férias que passei na Venezuela tornaram o sangue que corre em minhas veias tão vermelho, amarelo e azul quanto vermelho, branco e azul. Ainda me lembro de montar a cavalo pelas planícies do Acarigua, comer sanduíche de carne de porco na vila montanhosa de Galipán e de admirar a beleza da ilha tropical de Margarita.

Continuo sendo um otimista, ainda que seja difícil. Avanços foram conseguidos na Assembleia Nacional, um referendo revogatório está a caminho e a maré está se voltando contra o governo. Mas 15 anos de autoritarismo e repressão não podem ser desfeitos da noite para o dia.

O que pode ser feito por todas as pessoas é informar. Postar nas mídias sociais, falar com amigos, tornar-se ativista, esteja você na Venezuela ou no exterior. Se não sabe, faça perguntas. Com a mensagem do povo venezuelano disseminada em todo o mundo, a esperança se torna mais palpável e o controle do governo sobre o poder, enfraquecido.

Cometi o erro de me recusar a falar sobre esta questão grave e profundamente pessoal. Imploro que você não faça o mesmo. #SOSVenezuela

(*) Alfred J. Ramirez é escritor, nascido na Venezuela. Esse texto foi publicado oelo the HuffingtonPost Brasil

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