24/09/2017 12:48:00
Fernando Brito disse o que eu gostaria de ter escrito


Foto ilustrativa (Pixabay)


Me restabelecendo de uma virose que me deixou quase afônica, febril e com dores pelo corpo, reservei a manhã deste domingo para ler. Entre tantas braçadas, navegando pela net, me deparo com um texto escrito e publicado pelo jornalista Fernando Brito, no blog Tijolaço. Li e reli várias vezes e não encontrei um ponto que discordasse. É tudo o que penso. E muito mais do que isso, o que sinto. Por isso, peço licença ao autor e reproduzo o seu sentimento. Afinal, ele também, 100% meu. E como o título do artigo diz: 

Escrevo para ser útil. Agradar a todos é para os falsos

"Cheguei a uma idade em que, francamente, patrulha não me assusta. Quase sempre – e hoje especialmente – entra gente para comentar com o único propósito de xingar, desqualificar – a mim e a outros comentaristas – e fazer este chatíssimo discurso do ódio, em todas as suas variantes.

Desde o “vai pra Cuba” (nunca fui) até o – muito raramente – ultraesquerdismo que dá a volta ao mundo e acaba na direita.

São bem-vindos, em geral, não apenas porque ajudam a manter o blog, com o “ouro de Moscou” do Google, mas por serem seres humanos.

Sim, é isso o que penso. Penso dos que concordam, penso dos que discordam, penso dos que são hetero, homo, das muitas variações  recém-trazidas à linguagem, dos que são brancos, dos que não negros, dos que são roxos, azuis ou amarelos, dos que creem em Deus, dos que não creem.

Perdoem se não listo todos os “istas” e “ismos” , mas acho um horror ficar picando a humanidade em pedacinhos, Resumo: dos que são qualquer-coisa-que-são-ou-que-acham-que-são.

Desde que me deixem – e se não deixarem, perdem tempo – ser o que eu sou.

Não me recordo ter mandado alguém ir para a Ucrânia ou para a Arábia Saudita.

Dou minhas opiniões, sem pretender agradar a todos e, confesso, cuidando de não me deixar enredar em armadilhas em que, por uma palavra, todo o contexto do que digo seja distorcido.

A ninguém obrigo a nada e a nada me deixo obrigarem.

Acredito na polêmica como instrumento de purificação do pensamento, porque ouço e espero ser ouvido.

Não acredito em ovelhas negras nem em ovelhas branquinhas.

Só de uma coisa me envaideço: de ter chegado ao inverno do meu tempo ardendo como um dia de verão.

E só uma coisa agradeço: a oportunidade de poder falar a alguém. Melhor ainda que sejam quase 200 mil estes “alguéns”, todos os dias, ainda que nem sempre fale com a graça, o estilo e conteúdo que queria ter.

São mais de quatro anos, todos os dias, sem folgas, sem feriado, final de semana ou dia santo.

Se de algo mereço ser chamado, virtude ou defeito, é de teimoso.

Falhei num bocado de coisas, mas não desisti.

Porque este é o pior defeito, o de desistir, de achar que é melhor ser outra coisa, porque é mais fácil ou lucrativo.

O anjo torto do Drummond não me deu o talento do mestre, mas igual me disse – e eu segui seu conselho – para ser gauche na vida.

Com 40 anos de política, poderia estar aboletado, vendo a vida passar com certo conforto, mas dirijo sozinho este táxi aqui, todo dia.

Ainda que, nos últimos tempos, meus olhos só percorram ruas e gentes destruídas, pela pobreza ou pela bestificação.

Não escolho os passageiros e gosto de todos eles, dos que viajam uma vez comigo ou dos que todo dia me deixam transporta-los. É serviço público, como toda profissão é, e nele não se escolhe o freguês.

É a profissão, o trabalho, o maior bem que qualquer ser humano pode ter e o único que possuir o torna mais digno.

É profissão, como disse. E profissão tem de ser de fé, porque sem ela é cínica e mercenária.

E aí, perdoem a vaidade, é algo que me orgulho de não ser".

Sobre o Autor

Cristina Esteche é jornalista, publicitária e fundadora da Rede Sul de Notícias.