31/01/2017 13:58:00
A bruxa está solta!


Iemanjá (Foto:Internet)


Um movimento silencioso está tomando forma em Guarapuava. Trata-se de uma mobilização que visa o empoderamento feminino a partir do autoconhecimento, num círculo de amor, parceria, de recuperação dos poderes ancestrais, mas, principalmente, de confiança e de liberdade de nós mesmas. Digo isso porque durante séculos e séculos fomos oprimidas, violentadas psicologicamente, presas em algemas mentais que nos foram lacradas num contexto de inferioridade e de submissão. E aquelas, ousadas, que não aceitavam essas regras, que eram livres nas suas vontades, recebiam rótulos variados que as colocavam,  e ainda colocam, muitas vezes, à margem da sociedade. Que piada! Uma sociedade opressiva, conservadora, cruel, que provoca a exclusão a partir de conceitos machistas, preconceituosos, sobrepondo o Ter sobre o Ser.

Mas muitas mulheres estão decretando o fim desse ciclo e vivendo uma nova era. As chamas das fogueiras que dizimaram as bruxas, aquelas mulheres oriundas da antiga cultura libertária dos tempos matriarcais – por isso sou apaixonada pela cultura celta – empoderadas pela herança do conhecimento que era repassado de mãe para filha, representavam o perigo, o pecado, na era patriarcal cristã. Além de serem queimadas vivas nas fogueiras da “Santa Inquisição”, foram aprisionadas, massacradas, por um deus homem, que representa a força fragilizada do masculino, que para continuar no poder, impõe o medo, o ódio, a submissão, a inferioridade.  

Surgiu então, o estigma das bruxas, aquelas mulheres maléficas, feias e velhas que permeiam o  imaginário infantil de meninos e meninas nas histórias de Walt Disney, colaborando para que essa condição se perpetue por gerações e gerações. O apelo é tão grande que nós mesmas repetimos essas histórias em horas do conto, nas escolas, nas colônias de férias, na própria casa.

É o ódio pelas mulheres curandeiras, benzedeiras, mães e sacerdotisas que continua sendo imposto no decorrer dos milênios. Mas a hora do despertar dessa inconsciência coletiva é agora. Sabemos que somos bruxas, que somos curandeiras, benzedeiras, parteiras e que a nossa magia das bruxas é coisa tão natural quanto o ar que respiramos. Que temos o universo inteiro, dentro e fora de nós, que faz vibrar o seu misterioso poder mágico. Somos a natureza e a natureza é mágica, é livre.

Somos jornalistas, empresárias, publicitárias, políticas, astrólogas, tarólogas, terapeutas naturalistas, curandeiras,  domésticas, prostitutas, santas, deusas, sacerdotisas, e tantas outras faces. Somos bruxas, sim, e utilizamos a força da natureza, os rituais de purificação, de ancestralidade, invocando o poder do Sol, da Lua, do fogo, do ar, da água como instrumento para o renascimento da identidade psicológica que há tanto está adormecida. A divindade mora dentro de nós, independente de qual seja o deus da nossa fé.  Na nossa mente, no nosso Eu, no nosso poder feminino, que é sagrado, reside o poder da transformação.

Estamos organizadas, mobilizadas e a nossa intenção é unicamente sermos nós mesmas, sem máculas, sem medos, sem traumas, sem convenções. Só queremos cambiar a energia do planeta começando por nós mesmas e por todas as que nos cercam, independentes de quem sejam. Só queremos uma economia colaborativa, onde possamos uma ajudar a outra. Onde sejamos mestras de nós mesmas, onde celebramos as estações do ano, as fases da lua, o poder caloroso do  fogo e do Sol, a liberdade do vento, a pureza da água, a força da terra. E assim sendo, estamos tomando as rédeas do nosso caminhar, numa era que nos coloca frente a frente como aliadas, pondo um ponto final na competitividade, para nos tornarmos únicas, respeitando a individualidade e as diferenças de cada uma. Somos, sim, as bruxas do Século XXI e as nossas armas são também o arsenal da natureza, ou seja, a lei da ação e da reação, e ela é implacável.

Sobre o Autor

Cristina Esteche é jornalista, publicitária e fundadora da Rede Sul de Notícias.