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Discurso anticorrupção entra em choque com escândalos na reta final da eleição

Casos envolvendo Flávio Bolsonaro e a investigação ligada a Mauro Moraes colocam em xeque o discurso anticorrupção às vésperas das eleições

Cristina Esteche
Cristina Esteche Jornalista
5 min de leitura
Combate à corrupção fica no discurso

A eleição de 2026 chega às urnas sob um desconforto que atravessa Brasília e o Paraná: a corrupção continua sendo combustível eleitoral. Entretanto, o discurso moralizador parece perder a nitidez justamente quando as suspeitas alcançam aqueles que fizeram dele a principal bandeira.

No cenário nacional, Flávio Bolsonaro enfrenta uma reta final marcada pelo caso Banco Master. Documentos da Polícia Federal tornados públicos apontam que ele atuou diretamente nas negociações com Daniel Vorcaro para obter recursos destinados ao filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Flávio é investigado no episódio, que envolve suspeitas de lavagem de dinheiro. Não há condenação, e a apuração continua em andamento.

O episódio se soma ao desgaste acumulado de antigas controvérsias, como o caso das “rachadinhas”. A investigação foi encerrada depois que decisões judiciais invalidaram provas. Isso impede qualquer tentativa séria de tratá-la como condenação. Mas, politicamente, é impossível ignorar que o candidato que procura ocupar o espaço do discurso anticorrupção chega à eleição novamente cercado por questionamentos sobre dinheiro e relações políticas.

O problema não é exclusivo de um campo político. O próprio caso Master expôs conexões que atravessam diferentes partidos e setores do poder. Isso ajuda a explicar uma velha doença brasileira: corrupção é tratada como questão institucional apenas enquanto está no adversário. Quando chega perto dos aliados, surgem rapidamente as versões de perseguição, exagero ou conspiração. Ou pra fugir da questão, basta dizer "ele já se explicou".

DINHEIRO VIVO NO PARANÁ

No Paraná, a campanha para o governo recebeu a própria dose de constrangimento. A Polícia Federal fez buscas relacionadas ao deputado estadual Mauro Moraes (PL), aliado de Sergio Moro. Trata-se de investigação sobre movimentações financeiras atípicas e possíveis ilícitos eleitorais. O episódio envolve informações sobre cerca de R$ 300 mil em dinheiro vivo. Moraes afirma que o dinheiro é lícito e declarado e diz sofrer perseguição política.

Para Moro, o caso tem peso político especial. A trajetória dele foi construída sobre o combate à corrupção e a defesa de padrões rigorosos para a vida pública. Não há, até aqui, elemento público que atribua ao candidato responsabilidade pelos fatos investigados. Ainda assim, quando uma investigação alcança um aliado tão próximo em plena reta final, o discurso da campanha inevitavelmente passa a ser confrontado com o mesmo padrão de exigência que ela costuma aplicar aos adversários.

É talvez essa a fotografia mais incômoda da eleição: o combate à corrupção continua forte como retórica, mas seletivo como prática política. Brasil e Paraná chegam às urnas cercados por investigações, dinheiro em espécie e relações pouco transparentes.

Nenhum investigado deve ser condenado antecipadamente. Mas também não é aceitável que a cobrança por explicações desapareça conforme muda o lado político atingido. Democracia exige voto; exige também memória, coerência e fiscalização.