Desde o dia 5 de outubro tenho me deparado com artigos & mais artigos destacando a centralidade da comunicação digital no resultado do primeiro turno das eleições. Reflexões que, de modo ainda caótico, parecem guiar a campanha de Lula no segundo turno.
Na última semana, o presidente adotou o formato de vídeo selfie para falar com seus seguidores; André Janones criou o "Exército de Lula" no WhatsApp para disparo de conteúdo em massa; perfis de memes inundam as redes com vídeos burlescos feitos com inteligência artificial; circulam manchetes alarmistas que espelham a estética da direita; alguns internautas passaram até a usar o Kwai, aplicativo conhecido por concentrar pessoas das classes C, D e E, para tentar ampliar o alcance.
Em grupos de WhatsApp, apoiadores debatem as melhores maneiras de difundir os conteúdos. Há um temor, muito justificável, de que o algoritmo não entregue as postagens por motivos X, Y e Z. Paira, entre táticas e debates, a sensação de que a esquerda fala apenas com a própria bolha, ainda que os números de curtidas, compartilhamentos e visualizações pareçam ter crescido.
Independentemente do resultado nas urnas, será difícil medir o sucesso ou o fracasso de cada recurso testado neste segundo turno. Ainda assim, vejo com otimismo esse levante digital, mesmo atrasado, e a compreensão de que o território não é neutro.
MAS É PRECISO APROFUNDAR O DEBATE...
É evidente que a direita está muito à frente nesse jogo, mas a vantagem não se explica só pela habilidade com as redes. O impulso afetivo de um vídeo viral tem lastro em estruturas sólidas e enraizadas, remodeladas pelo neoliberalismo. As igrejas evangélicas; as forças policiais e militares; o agronegócio e toda estética da prosperidade. E, claro, plataformas cujo modelo de negócio premia a indignação, controladas por empresas que, nos últimos anos, se aproximaram abertamente da extrema-direita global.
Esse aparato serve para expandir o que chamo aqui de lógica do “Eu e Deus”. Trata-se de uma expressão muito comum em posts motivacionais na internet. O indivíduo vem primeiro, e Deus aparece como aliado, quase um sócio na luta diária. Entre os dois, não há mais nada. Nem Estado, nem sindicato, nem partido, nem vizinho.
Nesse arranjo, Deus acaba ocupando o lugar que o Estado deixou vago. É ele quem garante segurança, providência e esperança, quem cuida quando ninguém mais cuida. Não por acaso, a frase muitas vezes aparece como "só eu e Deus", a síntese de quem atravessou alguma dificuldade sozinho. A direita oferece as duas coisas, a liberdade do eu e a proteção de Deus, e apresenta a esquerda como ameaça a ambas. As redes, com sua lógica de desempenho individual, apenas amplificam uma visão de mundo que já estava ali.
A direita vende, portanto, uma esperança. Para o sujeito prosperar, basta que saiam do caminho o imposto, a fiscalização, o sindicato, o Estado. O resto é com ele e com Deus.
E O LULISMO?
Nos anos 2000, o lulismo oferecia ascensão. Pelo crédito consignado e pelo crediário, chegaram a geladeira, a moto, o carro na garagem. Pelo ProUni, pelo Fies e pela expansão das universidades federais, chegou o primeiro diploma da família. O salário mínimo subiu, a carteira assinada se espalhou, e por alguns anos pareceu plausível que estudar e trabalhar garantiriam um futuro. Porém, essa inclusão se fez quase sempre pelo consumo, e não pela politização. As pessoas melhoraram de vida como consumidoras individuais, não como parte de um sindicato, de um movimento ou de um projeto coletivo, e muitas viveram a própria ascensão como mérito pessoal, não como resultado de política pública.
O governo também nunca rompeu com a lógica que dizia combater. Manteve juros altos, preservou os ganhos do sistema financeiro e apoiou o crescimento num ciclo favorável de commodities que não duraria para sempre. Era uma forma de governar que distribuía sem transformar, e por isso frágil. Quando a crise chegou, ficaram as dívidas, e não restou uma rede coletiva capaz de amparar quem caía. Duas décadas depois, o lulismo já não promete ascensão. Tornou-se, ironicamente, gestor das instituições, guardião da ordem. Agora o governo corre atrás do algoritmo, mas esquece que nenhum alcance compensa a ausência de um sonho.
A ENCRUZILHADA DIGITAL
Copiar a estética da direita pode até ampliar o alcance no curto prazo. Mas esbarra num limite que o filósofo chinês Yuk Hui ajuda a enxergar. Para ele, nenhuma técnica é neutra. Da enxada ao algoritmo, toda ferramenta nasce dentro de uma visão de mundo. Uma ideia sobre o que é a natureza, qual o lugar do ser humano nela e o que significa viver bem. Hui chama isso de cosmotécnica. Não existe "a" tecnologia, no singular, mas muitas, e cada uma carrega uma moral.
As redes sociais que usamos não fogem à regra. Foram desenhadas no Vale do Silício para capturar atenção e vender anúncios, e funcionam pela lógica da competição, da performance individual e do engajamento pela raiva. Não é coincidência que a direita se sinta em casa nelas.
Soberania digital, então, não pode se resumir a ocupar melhor as plataformas dos outros. É preciso também perguntar que técnica queremos construir, e a serviço de qual visão de mundo.
SOBERANIA DIGITAL E UM NOVO SONHO
O Brasil já deu uma pista de que isso é possível. O Pix, criado pelo Banco Central, é uma tecnologia pública, gratuita, que entrou na rotina de quase todos os brasileiros. Funciona tão bem que entrou na mira do governo Trump em 2025, por concorrer com as gigantes americanas de pagamento.
Se foi possível criar uma infraestrutura pública para o dinheiro, por que parece impensável fazer o mesmo para a informação e a comunicação? A pergunta abre um campo amplo: a regulação das plataformas, que o Congresso engavetou e o Judiciário acabou tendo de enfrentar; o armazenamento dos dados dos brasileiros em servidores nacionais; o investimento em ferramentas públicas e abertas; o fortalecimento de rádios comunitárias, de veículos locais, de redes que não dependam do humor de um algoritmo desenhado na Califórnia. Tudo isso deve compor um projeto de país soberano digitalmente.
E talvez seja justamente esse o sonho que falta. A esquerda passou as últimas semanas tentando aprender a língua do algoritmo, mas o algoritmo só amplifica uma visão de mundo que já existe. Sem um horizonte próprio, qualquer técnica apenas distribui o horizonte de outro. Yuk Hui fala em tecnodiversidade: a possibilidade de que existam muitos futuros, e não um único caminho em que só se pode estar à frente ou atrasado. Para quem sente que perdeu o futuro, essa pode ser uma ideia mais mobilizadora do que qualquer vídeo viral.