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O fiasco artístico de Belo e Alcione no gramado reflete a desorganização de um Brasil sufocado por corrupção, soberania fragilizada e a pressão econômica dos EUA
Cristina EstecheJornalista
3 min de leitura
Belo e Alcione (Foto: reprodução/ Sportv)
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O episódio envolvendo Belo e Alcione na execução do Hino Nacional, antes do amistoso entre Brasil e Panamá, surge nas redes como meme, vexame e escândalo estético. Mas a pergunta que interessa não é se dois artistas populares “envergonharam” o país. A pergunta é outra: quem transformou um símbolo nacional em mais uma peça mal organizada do espetáculo?
Há uma diferença grande entre criticar uma apresentação e aderir ao linchamento. Belo e Alcione não são figuras menores da cultura brasileira. São artistas populares, negros, reconhecidos por trajetórias que atravessam gerações. Reduzir o episódio a uma humilhação pessoal é cair na armadilha fácil da internet: personalizar o erro, massacrar o artista e absolver a estrutura.
Se houve falha técnica, falta de retorno, desencontro de áudio ou improviso mal planejado, a responsabilidade não pode morrer no microfone. Um evento dessa dimensão exige organização, ensaio, respeito ao público e respeito aos próprios artistas convidados. O que desafinou no Maracanã não foi apenas a voz. Foi a lógica de um país que adora transformar cultura popular em ornamento, mas nem sempre garante as condições mínimas para que ela brilhe.
METÁFORA CONTRA A DESORGANIZAÇÃO
Por isso, o episódio do hino pode ser lido como metáfora, mas não contra Belo e Alcione. A metáfora é contra a desorganização de cima. Contra uma política que usa símbolos nacionais para inflamar a plateia, mas se cala quando a soberania brasileira é pressionada no comércio internacional.
Enquanto o país ria do descompasso no Maracanã, Washington colocava sobre a mesa uma nova proposta de tarifa contra produtos brasileiros. O governo Trump propôs uma sobretaxa de 25% sobre parte das importações do Brasil, alegando práticas comerciais consideradas injustas pelos Estados Unidos. A medida ainda depende de etapas formais, mas já mostra o tamanho da pressão externa sobre a economia brasileira.
Esse é o ponto político mais importante: o Brasil desafina quando perde o controle sobre a própria narrativa. Desafina quando aceita ser tratado como quintal. Desafina quando setores internos preferem apostar no desgaste do próprio país para colher dividendos eleitorais.
NO PARANÁ
No Paraná e no Brasil, o tom da campanha eleitoral já começa a aparecer: muito símbolo, muita pose, muita frase pronta e pouca explicação. A direita que se vendeu como fiscal da moralidade agora convive com os próprios constrangimentos. Quando a pergunta aperta, muda-se o assunto. Quando o aliado é cobrado, aparece a cortina de fumaça. Quando a realidade incomoda, o discurso engessado tenta transformar qualquer cobrança em perseguição.
O hino no Maracanã, portanto, não deve servir para humilhar dois artistas. Deve servir para revelar um país em disputa. De um lado, a política do meme, do linchamento. De outro, a necessidade de recuperar o sentido popular da nação: soberania, cultura, dignidade e responsabilidade pública.
Porque o verdadeiro vexame não é uma nota fora do lugar. O verdadeiro vexame é um país rico, criativo e potente continuar sendo organizado por gente que só sabe improvisar no microfone e obedecer no poder.
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